1 out. 2025 · natália honold

“unique businesses for special clients”

como a JHSF transformou imóveis em experiências e exclusividade em pertencimento

não é novidade ver um nome brasileiro estampado fora do país. ainda assim, cada vez que isso acontece em um endereço icônico, há algo que chama a atenção. foi assim quando vi o fasano na quinta avenida, cercado por vitrines de joalherias centenárias e bandeiras de marcas globais. previsível? talvez. mas inevitável não parar e pensar: como uma empresa nascida em são paulo conseguiu ocupar um dos endereços mais caros e simbólicos do mundo — e, ao mesmo tempo, ditar referência de luxo dentro do próprio brasil?

📍 fasano fifth avenue — 815 fifth avenue, manhattan, nyc. o hotel funciona como um membership club: acesso só para associados, apartamentos duplex de até 330 m² e serviços pensados para criar uma bolha de conforto no meio da cidade mais barulhenta do mundo. sauna, academia, room service 24h e o fasano fifth bar, que mistura coquetéis autorais e clássicos da cozinha italiana.

a resposta está na lógica.

a JHSF entendeu que não basta ser uma incorporadora: cada projeto precisa se conectar a outro, formando um ecossistema que se sustenta por si. shoppings, hotéis, restaurantes, aeroportos, condomínios, clubes de golfe e até centros equestres — nenhum desses negócios é pensado de forma isolada.

comprar uma casa na fazenda boa vista, por exemplo, não é apenas adquirir um imóvel; é entrar em uma rede de esportes, gastronomia, natureza e logística, que se estende até o aeroporto executivo catarina, desenhado para atender justamente esse público. o ativo físico vira apenas a porta de entrada para uma experiência maior.

essa visão tem duas camadas interessantes. a primeira é o planejamento de longo prazo: muitos dos projetos foram maturados por décadas, com expansões faseadas, absorvendo referências globais e ajustando o risco passo a passo. a segunda é a segmentação por estilo de vida, não por idade. em vez de dividir o público entre jovens, adultos e 55+, a empresa entende que o fator determinante é o perfil.

pode ser um cliente de 25 ou de 65 anos, se ambos compartilham de um mesmo lifestyle, eles vão se reconhecer na experiência. é por isso que um mesmo condomínio pode oferecer kids club, campo de golfe, e um restaurante assinado, tudo sem perder coerência. o pertencimento vem menos da faixa etária e mais da identificação simbólica.

e é aí que o branding se mistura com a experiência. cada detalhe — do design das casas à gastronomia, do serviço de hotel ao paisagismo — transmite a mesma consistência. a marca não é um logotipo, mas sim a sensação de previsibilidade: o cliente sabe o que esperar, e justamente por isso volta. exclusividade, aqui, não significa escassez, mas coesão.


do real estate ao lifestyle

fundada em 1972, a JHSF nasceu como incorporadora focada em projetos de alto padrão em são paulo. por décadas, construiu sua reputação no imobiliário, mas a virada aconteceu nos anos 2000, quando percebeu que poderia expandir além de imóveis — criando um portfólio de negócios conectados ao estilo de vida de um mesmo público.

quem explica bem essa lógica é josé auriemo neto, chairman da empresa há mais de 20 anos. em entrevista à cnn brasil (dezembro de 2023), ele resumiu assim:

“o cliente é sempre o início do processo. queremos entender o que ele gostaria de ter e não encontra no mercado de forma estruturada e profissional. a partir daí, os negócios vão se desenvolvendo.”

foi com essa visão que surgiram frentes como shopping centers, hotelaria (com a rede fasano, incorporada em 2007), aeroportos executivos e restaurantes. todos desenhados para o mesmo público: UHNW.

ao longo do tempo, a empresa aprendeu também com os próprios erros. logo após abrir capital, testou uma entrada em habitação popular, na onda que tomava o mercado imobiliário na época. mas, como contou o próprio auriemo, a experiência mostrou rápido que fugir do dna de alta renda não fazia sentido. faltava expertise, o investidor não via valor adicional e o cliente final não reconhecia a marca. a lição ficou clara: o futuro da JHSF estava em dobrar a aposta no segmento premium, onde qualidade é critério inegociável.

essa coerência se traduziu em planejamento de longo prazo. o complexo cidade jardim, por exemplo, levou 20 anos de maturação, sempre com expansão faseada — shopping, torres residenciais, corporativas e, agora, novas reservas. cada passo pensado em décadas, não em trimestres. como definiu augusto martins, CEO do grupo em uma entrevista postada no linkedin: “pegamos referências globais, mas sempre com execução faseada e foco na qualidade. é esse conjunto que transforma nossos projetos.”


exclusividade, a história.

exclusividade não nasceu do luxo como a gente conhece hoje, mas do acesso. na idade média, ela se manifestava em banquetes medievais e caçadas reais, onde poucos eram convidados a assistir ou participar. a ideia era mais social do que prática: não se tratava da comida em si ou da caça, mas do privilégio de estar dentro de um círculo que confirmava status. com o tempo, essa lógica se sofisticou.

no século xvii, os salons franceses reuniam escritores, políticos e artistas em encontros privados que moldavam ideias e reputações. no século xix, os clubes londrinos funcionavam quase como arenas de poder — cada espaço com seus códigos, acessíveis apenas a quem fazia parte daquela tribo restrita. exclusividade era ritual, era convivência, era barreira simbólica.

quando o século xx começou a desenhar o luxo moderno, exclusividade se institucionalizou nas marcas. hermès, louis vuitton, chanel: todas entenderam que não vendiam só produtos, mas pertencimento. um lenço, uma mala, uma bolsa eram bilhetes de entrada para universos fechados. ao mesmo tempo, as viagens de luxo começaram a aparecer como experiências para poucos — cabines em navios como o queen mary, ou vagões especiais no orient express, ofereciam mais do que deslocamento: eram cenários sociais. exclusividade passou a ter a ver com como você circulava, onde você dormia, quem dividia a mesa ao lado.

venice simplon-orient-express - o lendário trem que ainda cruza a europa com suas cabines originais dos anos 1920. hoje, a experiência pode custar de £3.500 por pessoa até mais de US$30k por noite nas suítes mais exclusivas.

no pós-segunda guerra mundial, essa lógica se expandiu para serviços e consumo. hotéis cinco estrelas criaram a figura do concierge capaz de abrir portas invisíveis, cartões como o american express centurion transformaram acesso em produto, restaurantes disputados usaram listas de espera como estratégia de desejo. exclusividade virou estratégia: criar barreiras de entrada (preço, convite, senha) e, ao mesmo tempo, justificar a travessia com experiências memoráveis.

o que valia não era só o jantar ou a viagem em si, mas a história de ter vivido algo que não podia ser replicado. e é esse fio histórico que chega até hoje, quando empreendimentos não vendem mais só espaço físico, mas a promessa de uma comunidade que se reconhece nos mesmos códigos.


experiências e branding

na prática, o que sustenta a reputação da JHSF não são só os ativos imobiliários, mas as experiências que eles amarram em torno deles. a piscina de ondas no surf lodge, por exemplo, é muito mais do que um “entretenimento”: é sinal de que o cliente pode encontrar, a menos de uma hora de são paulo, uma prática esportiva que normalmente exigiria viagens longas. isso reforça a lógica de conveniência, estilo de vida e exclusividade em um único ponto de contato.

são paulo surf club - de frente para a ponte estaiada, o primeiro surf club da capital reúne a piscina de ondas, quadras de tênis, beach tennis e squash, spa, academia e até clubhouse com bar e restaurante. funciona no modelo membership (individual ou familiar), com processo seletivo e fee anual.

o mesmo vale para o circuito privado de triathlon, hoje o maior da américa latina, que transforma a fazenda boa vista em referência para um público obcecado por performance e bem-estar.

essas experiências, quando vistas de fora, podem parecer “perks”. mas, para quem vive dentro do ecossistema JHSF, se complementam: o cliente entende que cada detalhe foi pensado para atender o estilo de vida dele, sem precisar buscar fora.

por isso que o branding se confunde com experiência. o luxo não está no objeto, mas na previsibilidade de saber que qualquer produto ou serviço carrega o mesmo padrão.

na fazenda boa vista, por exemplo, o imóvel não é só uma casa de campo — ele é a chave de entrada para um circuito de experiências exclusivas que só fazem sentido juntas: o campo de golfe projetado para rivalizar com clubes internacionais, o centro equestre, o kids club, os restaurantes fasano, o surf club no meio do interior paulista. tudo isso costurado como se fosse um “lifestyle club” disfarçado de condomínio.

o mesmo vale para o cidade jardim, onde o shopping não é só centro de compras, mas o coração de uma rede que conecta torres residenciais, escritórios de alto padrão e marcas globais — quase como o ritz e a avenue montaigne eram em paris nos anos 50. ou para o aeroporto, que funciona como a versão contemporânea das cabines de primeira classe do pós-guerra: não é sobre o voo em si, mas sobre criar uma camada de exclusividade logística para um público que mede tempo em minutos, não em horas.

coco chanel na varanda do ritz em paris

em todos os casos, o paralelo está na mesma lógica: não vender o produto isolado (a casa, a loja, o voo), mas sim o direito de pertencer a uma comunidade de ultra high net worth individuals. e isso é exatamente o que faz a JHSF ser mais que incorporadora — é uma empresa que entendeu que exclusividade, no fundo, é sobre desenhar a vida de um grupo específico, em todos os detalhes.

no fim, é isso que essa frase carrega.

“unique businesses…: um negócio só é único quando faz o cliente sentir que também é.

…for special clients”: e o cliente só se reconhece como especial quando encontra algo que parece ter sido criado só para ele.

esse jogo duplo é o que sustenta a JHSF como referência de luxo. não basta erguer prédios ou abrir lojas — é preciso construir pertencimento.

talvez seja aqui que esteja a provocação para o nosso mercado: até que ponto estamos criando produtos isolados — e até que ponto estamos criando experiências que, de fato, fazem alguém sentir que está em um lugar onde poucos podem estar?

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