12 nov. 2025 · natália honold

the bear season

tendências mudam, ciclos voltam e ensinam

the year is 2025

abri o tiktok e parecia que todo mundo estava atrás do mesmo copo. o bearista cup, copo de vidro em formato de urso com tampa verde, chegou às lojas dos eua em 6 de novembro de 2025. em poucas horas, o estoque acabou. houve loja com menos de dez unidades, filas antes da abertura e vídeos de gente discutindo no caixa. no dia seguinte, o mesmo copo aparecia no eBay por valores entre 20.000 e 50.000 dólares. a starbucks divulgou nota reconhecendo que a demanda “superou até as maiores expectativas” e prometeu repor parte dos itens nas semanas seguintes.

o lançamento veio em meio a uma desaceleração. nos resultados do terceiro trimestre fiscal, a empresa registrou queda de 3% nas vendas globais e perda de fluxo nas lojas norte-americanas. o CEO, Laxman Narasimhan, disse que a prioridade para 2026 era reacelerar o tráfego físico e reforçar a presença da marca no cotidiano. o bearista cup fez isso sem campanha, apenas com o ruído certo.

o produto também acertou no visual. o copo é bonito, quase infantil, e conversa com uma tendência clara que atravessa o consumo atual: a estética do urso. o personagem polo bear da Ralph Lauren voltou às vitrines, o mascote da Gentle Monster aparece em colaborações de moda e o urso virou tema recorrente em coleções da Moschino e da Loewe. o bearista se encaixa nesse mesmo raciocínio, mistura nostalgia, humor e afeto num objeto simples, o tipo de item que parece feito para ser fotografado.

o primeiro polo bear da ralph lauren foi um presente: um boneco feito sob medida pelo ateliê steiff, vestido como o próprio ralph. o público pediu um igual — e a marca transformou o mascote em estampa. desde 1991, o urso atravessa gerações, reaparecendo em sweaters, canecas e campanhas, sempre com a mesma pegada de nostalgia elegante.

essa não foi a primeira vez que a Starbucks usou escassez como ferramenta. a marca já testava o modelo na Ásia, principalmente em China, Coreia e Japão, onde o consumo de produtos sazonais e colecionáveis faz parte do comportamento de compra. lá, cada coleção de canecas temáticas se esgota em minutos e reaparece em revenda. o bearista chegou aos Estados Unidos com o mesmo padrão: poucas unidades, nenhuma comunicação antecipada e resposta pública rápida. o resultado foi previsível: filas, mídia espontânea e uma presença constante nas conversas de fim de ano.

as versões do bearista cup já circulam há alguns anos em mercados asiáticos, especialmente na china, coreia do sul, japão e taiwan, onde a starbucks mantém programas sazonais de colecionáveis. cada país lança edições próprias com acessórios e cores diferentes para datas como natal, ano-novo lunar e halloween. as unidades costumam se esgotar em minutos e reaparecem em sites de revenda. a coleção da foto reúne modelos lançados entre 2021 e 2024.

a estratégia segue uma lógica simples:

1. distribuição controlada. poucas unidades por loja e um lançamento silencioso criam a sensação de descoberta. o cliente sente que encontrou algo antes dos outros. essa percepção gera comportamento de caça: quem encontra, compartilha. quem não encontra, volta para tentar. o simples fato de o produto poder acabar muda a relação com a compra e acelera a decisão.

2. narrativa da escassez. o pedido público de desculpas, em vez de um erro de planejamento, serve para reforçar o valor da experiência. quando a marca admite que não previu a demanda, transforma a falta em evidência de sucesso. o que poderia parecer falha operacional vira sinal de relevância. o consumidor lê como validação coletiva: se acabou, é porque era bom.

3. efeito de revenda. a aparição imediata do copo em sites como eBay ou Depop, a preços altos, atua como propaganda indireta. o valor de revenda cria prova social e funciona como um tipo de endosso público que nenhuma campanha paga entrega. os números de busca e menções aumentam e a curiosidade se espalha até entre quem nem era cliente ativo da marca.

4. retorno físico. quem não conseguiu tenta de novo. quem conseguiu volta para mostrar, comprar outro, postar. muita gente que não frequentava mais a Starbucks voltou a entrar nas lojas na esperança de encontrar o copo. cada nova visita termina em uma compra — café, sobremesa, outro item qualquer. o fluxo cresce, o ticket médio aumenta e a marca recupera algo mais valioso que o estoque: o hábito.

no marketing comportamental, esse tipo de ciclo combina quatro princípios conhecidos: escassez planejada, prova social, efeito de mídia orgânica e reativação de hábito. juntos, eles formam um mecanismo de atenção que faz o consumidor se mover e depois voltar. o bearista cup aplicou essa lógica de forma exemplar e transformou uma ação tática em comportamento coletivo.

ninguém comprou o copo apenas pelo design, nem só pela limitação. compraram o momento. e talvez esse seja o ponto de partida para entender o que separa as marcas que fazem barulho das que constroem influência duradoura. algumas aprendem a criar escassez; outras, a dominar o tempo.


the 60’s

the kennedy’s

em 1960, os estados unidos transmitiram pela primeira vez um debate presidencial pela televisão. john f. kennedy e richard nixon falaram a uma audiência de mais de 70 milhões de pessoas. quem ouviu pelo rádio achou que nixon venceu; quem assistiu pela tv viu o contrário. kennedy apareceu bronzeado, calmo e direto. nixon, recém-recuperado de uma infecção, suava sob as luzes. foi a primeira eleição decidida pela imagem e a prova de que percepção podia valer tanto quanto discurso.

os kennedy não nasceram ricos. joseph p. kennedy, filho de um político local de origem irlandesa, construiu fortuna em bancos, corretoras e no setor imobiliário. investiu em hollywood na década de 1920, presidiu a sec em 1934 e serviu como embaixador dos estados unidos em londres entre 1938 e 1940. disciplinado e ambicioso, tratava a família como projeto público. o primogênito, joseph jr., morreu durante a segunda guerra. o segundo filho, john f kennedy, herdou o plano e chegou à presidência aos 43 anos, o mais jovem do país até então.

os irmãos robert e edward seguiram carreira política. eunice kennedy shriver fundou os special olympics em 1968, e rosemary kennedy, que enfrentava problemas de saúde e comportamento desde jovem, foi submetida a uma lobotomia em 1941 e mantida afastada da mídia por décadas, numa tentativa de proteger a imagem familiar.

a ascensão dos kennedy marcou o nascimento de uma nova elite americana. jovens, católicos e de origem imigrante, mostravam um tipo de poder que unia carisma e disciplina. jacqueline bouvier kennedy (jackie kennedy) completou o quadro. formada em literatura francesa, fluente em vários idiomas, foi fotógrafa e editora antes da casa branca. a primeira-dama transformou a imagem do governo americano em produto cultural.

em 1962, o especial televisivo a tour of the white house alcançou 80 milhões de espectadores e recebeu o prêmio peabody. naquele mesmo ano, o discurso de john na rice university, com a frase “we choose to go to the moon not because it is easy, but because it is hard”, consolidou o tom de otimismo que definia a era.

em fevereiro de 1962, jacqueline kennedy apresentou pela primeira vez a casa branca em rede nacional. o especial a tour of the white house foi transmitido pela cbs e pela nbc para mais de 80 milhões de pessoas e venceu o prêmio peabody no mesmo ano. o programa consolidou a imagem pública do casal kennedy e transformou a residência presidencial em um símbolo de cultura e modernidade americana.

em janeiro de 1961, o discurso inaugural de kennedy estampou a frase “ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country”. a life magazine chamou o casal de “a new american dynasty”. após o assassinato de john, em 1963, jackie comparou os anos da presidência a camelot. o new york daily news publicou “the nation weeps”, e a ideia de uma américa jovem, elegante e promissora ficou gravada na memória coletiva.

e quando olhamos de perto, os mesmos padrões voltam a aparecer. havia escassez planejada: john e jackie apareciam pouco e de forma calculada. entre 1961 e 1963, o casal participou de menos de uma dúzia de transmissões nacionais, segundo o JFK library archives, e cada uma era tratada como um evento. havia prova social: o público via pouco, sabia pouco e isso bastava para manter o interesse. o controle de imagem era total; as fotos que chegavam à imprensa eram selecionadas a dedo. havia efeito de mídia orgânica: capas, retratos e lembranças continuaram circulando por décadas. a edição da life de dezembro de 1963 vendeu mais de 7 milhões de cópias e até hoje objetos ligados ao casal aparecem em leilões e exposições. e havia reativação de hábito: o público voltava. o especial a tour of the white house segue sendo reprisado e a john f. kennedy presidential library recebe mais de 200 mil visitantes por ano.

em 22 de novembro de 1963, john e jacqueline kennedy chegaram a dallas, no texas, para uma visita oficial. a foto foi tirada poucas horas antes do assassinato do presidente. jackie usava o tailleur rosa de lã da chanel que se tornaria uma das imagens mais marcantes do século xx. o casal foi recebido por uma multidão no aeroporto de love field antes de seguir em carro aberto pelo centro da cidade.

os kennedy dominaram o tempo com o mesmo método que hoje move o consumo: ritmo, controle e imagem. e, de certo modo, a lógica que começou ali, a de transformar atenção em capital, é a mesma que define o marketing moderno.


the 90’s

em dezembro de 1992, o filme home alone 2: lost in new york estreou nos cinemas americanos e arrecadou mais de 350 milhões de dólares no mundo, o dobro do orçamento do primeiro. parte do sucesso vinha do cenário: o plaza hotel. localizado na quinta avenida, de frente para o central park, o prédio é um dos endereços mais reconhecíveis de nova york desde 1907. depois do filme, virou ponto turístico permanente. até hoje, turistas se hospedam ali para refazer as cenas de kevin mccallister, do check-in ao sundae servido no quarto.

quando home alone 2 foi lançado, o plaza ainda pertencia à rede fairmont, mas vivia um momento difícil. os custos de manutenção eram altos e a ocupação, instável. o filme mudou isso. a fox pagou uma taxa de locação estimada em 40 mil dólares por dia, e o hotel usou a exposição como reposicionamento. em 24 de dezembro de 1993, o new york times publicou a matéria “the plaza hotel’s new starring role”, relatando o aumento de reservas e visitas após o filme. o quarto 411, usado na filmagem, virou atração e passou a ser decorado todo natal com os mesmos brinquedos da cena original.

em 2018, o hotel relançou a ideia com o pacote home alone 2 experience, divulgado pela fairmont. o pacote incluía hospedagem, transporte em limousine, sundae e ingressos para o observatório do empire state building. o preço variava de 895 a 3.500 dólares por noite. as reservas esgotaram em menos de 48 horas. o tour era narrado por tim curry, o concierge do filme, e o travel + leisure chamou o relançamento de “a dose perfeita de nostalgia em versão cinco estrelas”.

o mesmo padrão se repetiu. havia escassez planejada: o pacote de natal é limitado, anunciado por poucos dias e esgota rapidamente. havia prova social: o filme segue sendo exibido por milhões e se tornou um ritual coletivo de fim de ano. havia efeito de mídia orgânica: em 2022, vídeos de hóspedes recriando cenas somaram mais de 10 milhões de visualizações no tiktok. e havia reativação de hábito: segundo o google trends, as buscas por “plaza hotel home alone” crescem mais de 500% todo dezembro.

segundo o smith travel research, hotéis de luxo em nova york registram ocupação média de 82,7% em dezembro, e o plaza se mantém entre os mais procurados do grupo. cada menção ao filme ou à cidade reativa o mesmo imaginário: luxo, conforto, infância, tempo. é o mesmo raciocínio que a starbucks aplicou com o bearista cup, transformar nostalgia em gatilho de comportamento.

nova york aprendeu a vender o que não envelhece, o desejo de reviver algo que já foi um hit.


the never ending cycle

trazer esses fatos pra mesma mesa, uma família política dos anos 60, um hotel transformado em cenário nos anos 90 e uma marca de café em 2025, não é coincidência nem nostalgia. é um jeito de entender como o tempo, a atenção e o comportamento se organizam em ciclos. cada um deles reagiu a um momento de saturação: os kennedy num país cético depois da guerra, o plaza num mercado que precisava de fantasia, a starbucks num consumo cansado de si mesmo. o que muda é o formato. o padrão, não.

olhar pra isso não é um exercício de curiosidade; é uma ferramenta de leitura. quem trabalha com dinheiro, marca ou imagem precisa entender o que move as pessoas, porque o capital, a comunicação e o comportamento seguem a mesma lógica: todos vendem percepção de tempo. bancos vendem a promessa de futuro, marcas vendem a sensação de estar no presente certo, e o consumo inteiro se organiza em torno de quem antecipa o próximo movimento. no fim, tanto o mercado financeiro quanto o cultural vivem de administrar a relação emocional das pessoas com o temp: quando acelerar, quando esperar, quando parecer estável.

é por isso que esses textos existem. pra usar cultura, história e mercado como treino de leitura, não de tendência, mas de raciocínio. o objetivo é exercitar o olhar analítico e o olhar humano ao mesmo tempo, entender o dado, mas também a emoção que o sustenta. porque o que move o gráfico é a reação, a decisão de alguém de entrar, sair, comprar, investir. e essa decisão raramente é puramente racional.

essa é a utilidade prática de observar o mundo com mais atenção. não é pra romantizar um copo de ursinho ou uma família, é pra aprender a reconhecer os padrões que voltam. quem trabalha com finanças sabe o peso disso: ciclos existem, e quem entende o tempo certo de agir ou de esperar quase sempre sai na frente.

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