17 set. 2025 · natália honold

relacionamento é o imóvel mais valioso

o que aprendi com gloria nilson & berkshire hathaway sobre relacionamento, confiança e experiência

vindo de real estate e hoje atuando no mercado financeiro, eu enxergo cada vez mais como esses dois mundos se cruzam. claro que vender uma casa e gerir o patrimônio de uma família são responsabilidades diferentes em escala e natureza, mas ambos têm algo em comum: são decisões enormes, que envolvem confiança e marcam a vida das pessoas por muitos anos.

em ambos os casos, o que fica não é só o ativo em si, mas a experiência vivida ao longo do processo. é sobre isso que eu quero falar aqui, compartilhar um pouco da minha própria história trabalhando em brokerages de diferentes tamanhos e culturas e como esses aprendizados ainda me ajudam no mercado em que atuo hoje.


modern family vs. real life

todo mundo já viu uma cena de open house em algum filme ou série. no modern family, por exemplo, o phil dunphy sempre aparecia como aquele realtor carismático que assava cookies no forno para deixar a casa cheirando bem quando os clientes chegassem. é divertido de assistir porque simplifica a ideia de vender uma casa a um gesto de hospitalidade. mas a verdade, como eu descobri trabalhando por dentro de algumas brokerages, era muito diferente. tive a chance de viver de perto como cada empresa pensava a experiência do cliente e como escolhia se apresentar em um open house. e esse olhar, que mistura bastidores e cultura pop, me mostrou que o real estate nunca foi só sobre imóveis, sempre foi sobre como você faz alguém se sentir naquele momento.

na gloria nilson, que era uma brokerage pequena e familiar em new jersey, a regra era clara: nada de cookies assando, nada de copo d’água oferecido. a preocupação era com responsabilidade legal caso algo desse errado em um open house. como era uma estrutura pequena, preferiam não correr esse risco. mas, por outro lado, havia um foco enorme em relacionamento de longo prazo. não era sobre impressionar só no dia da visita, era sobre estar presente o ano inteiro. a gente mandava calendários de geladeira, cartões perguntando como estava a vida, como estava a casa nova. no natal, muitos colegas levavam tortas para os clientes com quem tinham laços mais próximos. parecia simples, mas foi ali que aprendi a importância de cultivar vínculos para além da transação.

berkshire hathaway e a disciplina da escala

o primeiro escritório da berkshire hathaway que trabalhei, antes glória nilson

quando a gloria nilson foi comprada pela berkshire hathaway, o choque cultural foi enorme. a empresa, que sempre funcionou com aquele clima de escritório familiar, virou parte de uma estrutura global, com processos muito bem definidos e quase nada deixado ao acaso. era uma marca que já tinha atravessado décadas e, justamente por isso, tinha construído sistemas para lidar com todo tipo de situação, desde contratos até a forma como cada realtor deveria se posicionar. ali, o foco deixava de ser o trabalho em equipe como eu conhecia e passava a estar muito mais na individualidade: cada corretor precisava se promover, construir seu próprio site, criar páginas específicas para os imóveis que representava. a berkshire tinha uma preocupação clara em ensinar os realtors a se venderem, oferecendo ferramentas como o docusign (que na época ainda não era tão comum) e o canva, já integrado para facilitar a criação de materiais. era um ambiente muito mais tecnológico e orientado para resultado.

mas toda mudança vem com seu custo. muitos corretores mais antigos, que estavam no mercado há vinte, trinta ou quarenta anos, tiveram dificuldade de acompanhar essa transformação e acabaram saindo. e junto com eles, saía também uma rede de relacionamentos construída ao longo de gerações. porque em real estate não se vende só uma casa.

você vende o primeiro apartamento de um casal que acabou de começar a vida juntos, depois a casa maior quando vêm os filhos, depois duas casas se há uma separação, depois o downsizing quando os filhos saem para a faculdade, depois uma casa de aposentadoria, e muitas vezes ainda ajuda os próprios filhos ou netos a encontrarem seus lares. é um relacionamento que atravessa fases de vida e cria uma confiança muito difícil de substituir.

quando uma empresa acelera a transição tecnológica sem pensar em como apoiar quem já carregava esses relacionamentos, perde algo valioso que não aparece em planilhas, mas que sustenta o negócio no longo prazo. para mim, foi uma das maiores lições de trabalhar lá dentro: inovação é necessária, mas precisa caminhar junto com o cuidado de preservar relacionamentos.

já na exp, que operava em um modelo totalmente digital, a lógica era outra. escritórios virtuais, reuniões gamificadas, managers online. mas tudo isso era voltado para os brokers e realtors, não para o cliente final, que continuava esperando a mesma coisa de sempre: alguém confiável, que resolvesse, que estivesse presente.

no extremo oposto, na christie’s international real estate, o que importava era encenar a compra como uma obra de arte. clientes de ultra high net worth não queriam apenas uma casa, mas um terreno que vinha acompanhado de uma história, quase como uma galeria. essa era uma operação onde vender um imóvel vinha sempre junto de vender um estilo de vida. a christie’s criava até revistas de lifestyle para apresentar destinos, restaurantes e passeios culturais, quase como uma prévia de como seria viver ali.

essas experiências me ensinaram que a forma de operar muda, mas a essência não. cada cliente carrega consigo uma expectativa emocional e prática. uns querem proximidade, outros querem escala, outros querem status. e quem trabalha nesse mercado precisa saber traduzir isso em detalhes concretos.


customer experience como diferencial

os relatórios da mckinsey e da CBRE reforçam esse ponto. empresas que colocam o cliente no centro reduzem atritos e criam diferenciais que os números sozinhos não explicam. a mckinsey mostrou, por exemplo, que operadoras residenciais que investem em experiências personalizadas chegam a cobrar até 15% a mais em aluguéis e têm taxas de renovação superiores às concorrentes. isso acontece porque cada interação conta: desde um e-mail que lembra o aniversário do cliente até a transparência de um app que mostra em tempo real o status de uma manutenção. parece detalhe, mas esses pontos de contato viram confiança — e confiança vira retorno.

a CBRE vai além e mostra que marcas fortes em real estate criam até 10% de valorização adicional nos imóveis, porque não vendem só espaço físico, vendem pertencimento. é por isso que cada vez mais empreendimentos pensam como marcas de consumo: criam identidade, transmitem valores, constroem comunidade.


superior customer experience in real estate combines evocative brands, memorable moments, and low-cost operations

em outras palavras, a experiência do cliente em real estate só é realmente superior quando consegue juntar três elementos que parecem opostos: a força de uma marca que desperta emoção, a criação de momentos que ficam na memória e uma operação que funcione bem, sem custo excessivo ou desperdício. muitas vezes, o mercado se perde tentando oferecer apenas uma dessas partes — ou é luxo sem eficiência, ou eficiência sem calor humano.

o que a mckinsey aponta é que o verdadeiro diferencial está no equilíbrio, e esse equilíbrio exige disciplina: a marca precisa ser clara, os momentos precisam ser desenhados com intenção, e a operação tem que ser enxuta o suficiente para não deixar a experiência travar.

from commodity to segment-specific community

aqui a ideia é que um imóvel não pode mais ser tratado como produto genérico, algo que se compra e pronto. cada vez mais, ele é visto como um ponto de pertencimento: um espaço que conecta o cliente a uma comunidade com estilo de vida, valores e códigos próprios. não se trata apenas de entregar paredes e teto, mas de mostrar ao comprador que ele está entrando em um grupo que faz sentido para quem ele é. é uma mudança de olhar, do bem de consumo para a construção de comunidade. e essa mudança exige sensibilidade: o corretor, a brokerage ou a marca precisam saber traduzir o que aquela comunidade representa e como o cliente pode se ver parte dela.

from one size fits all to personalized experience

essa transição talvez seja a mais evidente: não existe mais espaço para a experiência padronizada. personalizar não é só trocar o nome no e-mail ou ajustar uma brochura. é entender em que momento de vida o cliente está, o que ele valoriza de verdade e como a jornada pode ser desenhada para atender essas nuances. pode ser a forma de apresentar um imóvel, a curadoria de bairros que façam sentido para aquela família, ou até os detalhes do acompanhamento depois da compra. a experiência personalizada não precisa ser cara ou complexa, mas precisa ser intencional. e, quando bem feita, cria um efeito de exclusividade que dificilmente se perde.


no fim, penso que a gloria nilson, que foi a primeira brokerage onde trabalhei e a menor de todas, me ensinou muito do que carrego até hoje. era a mais familiar, a menos tecnológica, mas também a que mais me mostrou o valor de relacionamento, caráter e trabalho em equipe. a broker que me liderava não tratava a gente como números, mas com um cuidado raro, sempre oferecendo espaço e oportunidades. olhando em retrospecto, foi quase como um bootcamp de experiência ao cliente: ali eu aprendi que vender uma casa não é só sobre a chave que você entrega, é sobre como você sustenta o vínculo ao longo dos anos.

talvez tenha sido esse olhar que mais tarde me ajudou a enxergar como, em qualquer mercado, inclusive o financeiro, a base sempre vai ser a mesma: confiança e relacionamento.


gloria nilson

fundadora da gloria nilson & co. real estate em 1977, construiu uma das brokerages mais respeitadas de nova jersey, conhecida por seu foco em relacionamentos de longo prazo com clientes. sua marca pessoal — sempre elegante, com seus icônicos chapéus — virou quase tão reconhecida quanto sua empresa. em 2017, sua brokerage foi adquirida pela berkshire hathaway homeservices, mas gloria segue ativa no mercado, com quase 50 anos de experiência, ainda atendendo clientes em monmouth county.

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