9 jun. 2025 · luise villa

o que o mIRC me ensinou sobre inteligência de mercado

reflexões de uma curiosa pra inspirar a sua semana

muitos de vocês provavelmente nem vão saber do que eu tô falando, mas existiu uma época em que a internet não era sinônimo de tudo pronto.

isso foi antes de aparecerem os vídeos acelerados no youtube, os templates e ferramentas perfeitos do canva e muuuito antes do chatGPT resumir o mundo em três parágrafos.

a gente ligava a CPU e abria o navegador com cuidado (e com tempo). ouvia o chiado do modem, torcia pra conexão funcionar, e se preparava pra descobrir as coisas de um jeito que envolvia muita paciência, muita tentativa e muito erro.

o mIRC foi uma escola. quem viveu, sabe.

cada canal tinha suas regras, cada comando era um enigma. você digitava /join #sala, entrava numa conversa que já tinha começado, tentava entender a dinâmica, os apelidos, as piadas internas.

não tinha onboarding, não tinha glossário. tinha que prestar atenção e se jogar.

e baixar um "template” pro seu blog no blogger.com? era mais do que escolher uma cor ou uma fonte. era quase um ritual: a gente copiava um código de algum lugar, colava na seção errada, quebrava a página toda, começava de novo e de novo e de novo.

o que eu mais lembro disso tudo é a sensação.
o prazer de descobrir por conta própria.
o impulso de tentar mais uma vez, mesmo depois de errar outras 529.
o orgulho silencioso de quem aprendeu algo sem precisar pedir ajuda.

essas experiências, que na época pareciam só distrações, foram me ensinando uma coisa que o ensino formal não ensinou: como pensar sozinha. sem perceber, eu acabei formando um método. um jeito muito meu de aprender. que começa com a curiosidade, passa pelo caos e só depois encontra estrutura.


não sei o que é dominar tudo de primeira, mas sou expert em fazer perguntas melhores.

meu pai teve um papel enorme nisso. ele sempre foi da tecnologia, mas nunca foi didático. não era do tipo que explicava passo a passo, nem que sentava comigo pra resolver um problema. ele só dizia: “vai no google e vê como faz.”

com 8 anos, lá estava eu tentando fazer o trabalho de ciências pela internet. seria mais fácil ter procurado na barsa, de preferência com alguém me mostrando o caminho.

hoje eu entendo o que ele estava fazendo:

eu aprendi a ter autonomia porque ele confiava que eu ia dar conta.
esse é um hábito que moldou minha vida profissional muito mais do que qualquer tutorial ou curso.

foi assim que eu aprendi a fuçar. a testar. a pesquisar sozinha. o que me levou a ter paciência com a minha ignorância temporária, e então comecei a desenvolver um tipo de pensamento que não depende de manual.

até hoje, tudo que eu mais amo aprender começa do mesmo jeito: com a sensação de que eu ainda não sei, mas quero muito entender.

durante a faculdade de letras, meu histórico escolar parecia um mapa caótico. e, sinceramente, era. em um semestre, eu estava mergulhada em teorias linguísticas. no outro, me enfiava nas aulas de economia e literatura. às vezes misturava tudo isso com jornalismo.


eu sempre soube que não existia um só lugar onde eu cabia.

em vez de forçar um caminho ortodoxo, comecei a aceitar essa inquietação como bússola. em 2016, recebi um convite muito especial: o grande deva pascovicci, diretor da rádio CBN na época, me chamou pra apresentar um programa ao vivo, toda sexta-feira.

eu nunca sequer tinha entrado em um estúdio de rádio. e ele, com a calma de quem já tinha vivido bastante coisa, me disse:

“o técnico, eu te ensino. isso é o mais fácil.
o mais rico é o que você tem na sua cabeça.
é esse brilho no olho. a curiosidade. a criatividade.”

que loucura é alguém te olhar e enxergar valor não no que você já sabe fazer, mas no jeito como você pensa. isso, pra mim, foi transformador.

3 anos depois, em 2020, comecei minha trajetória no mercado financeiro participando de projetos com gestoras globais como oaktree, bridgewater, man group. um mercado exigente, técnico, cheio de regras (formais e informais).

vocês sabem: investidores sofisticados exigem profundidade. eles percebem quando o discurso é raso e não têm tempo a perder com o que não faz sentido.

ali, eu tive que afiar ainda mais meu olhar.

aprender a ler entrelinhas de relatórios, de reuniões e principalmente de silêncios.
a fazer perguntas ainda melhores.

a me posicionar com clareza, mesmo quando eu não sabia nem por onde começar a buscar uma resposta.


o que eu ainda posso aprender aqui?

passei os anos seguintes sendo movida por essa mesma pergunta.

em 2023, depois de alguns ciclos de aprendizado, a fnmk me encontrou.

não foi nada planejado e nem uma virada repentina. na verdade, foi quase um reflexo. pedi demissão, me tornei empreendedora e agora estamos aqui conversando.

prometo que conto essa história com mais calma. o que quero te dizer hoje é:

vivo o resultado de uma inquietação que surgiu em 2012.

por que o mercado financeiro se comunica como se estivesse com medo de ser entendido? por que tanta informação relevante continua inacessível, engessada, mal traduzida?

felizmente, sempre me pego de novo nesse lugar: o de quem não sabe tudo. de quem está aprendendo algo novo, do zero, com a mesma mistura de euforia e medo.

é sempre a mesma coisa. é como voltar naquele quarto escuro, com o chiado do modem no fundo, e o HTML do blog aberto esperando minha próxima invenção.

é uma faísca que acende por dentro.
um lembrete do quanto eu ainda sou curiosa.

e, nessa hora, sempre penso no meu pai. foi ele que me ensinou a não ter medo de não saber. a procurar. a testar. a me virar. e esse jeito de aprender virou quem eu sou.

então, pai, obrigada por confiar no meu jeito. por me deixar descobrir no meu tempo. por nunca tentar me explicar demais. é por sua causa que eu continuo aqui. aprendendo. fuçando. errando. acertando. me deixando ser provocada por coisas novas.


talvez esse seja um convite pra sua semana

escolha uma coisa nova. algo que você não sabe quase nada. pode ser pequena ou grande, não importa.

pode começar com algo tão simples quanto abrir o chatGPT e escrever: “me ensina a usar você melhor no meu dia a dia profissional?”. vê o que acontece. presta atenção no caminho a partir dali.

às vezes, a coisa mais transformadora que a gente pode fazer é reaprender a sentir curiosidade. e confiar que ela sempre sabe o caminho certo.

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