members only
como as ivy leagues criaram o modelo dos clubes que definem o poder até hoje
a primeira vez que fui a princeton foi há dez anos. desde então, a gente volta todo ano, eu e a olivia, minha filha de oito anos. é uma daquelas tradições pequenas que viram sagradas com o tempo: passear pelo centrinho, tomar café no mesmo lugar e terminar o dia caminhando pelo campus, como se fosse uma visita a um filme que a gente nunca se cansa de assistir.

o campus é exatamente o que vem à cabeça quando alguém pensa em uma faculdade americana. prédios de pedra cobertos de hera, o som distante de sinos, bicicletas encostadas em muros baixos. a universidade ocupa o coração da cidade, cercada, mas não isolada. talvez por isso o lugar pareça tão vivo e ao mesmo tempo tão intocável.
fundada em 1746, quase trinta anos antes da independência dos Estados Unidos, princeton é uma das universidades mais antigas do país. cresceu, se modernizou, mas manteve um equilíbrio raro entre o passado e o presente. há algo ali que resiste: uma reverência silenciosa pelo que é antigo.
ao longo desses quase trezentos anos, saíram de seus corredores presidentes, escritores e cientistas. james madison estudou ali antes de escrever a constituição. f. scott fitzgerald transformou as festas e os clubes estudantis em literatura. michelle obama fez parte de uma geração que começou a quebrar a lógica de exclusão. e albert einstein, que viveu e trabalhou na cidade, acabou virando quase um mito local. o rosto dele aparece em cafés, murais e lembranças, como se o lugar tivesse herdado um pouco do brilho dele.


onde tudo começa
na última visita, a gente passou pela prospect avenue, a rua das fraternities e sororities. era fim de tarde e parecia ter uma festa acontecendo, bandeiras, música alta, fantasias, risadas. acho que era o oktoberfest.
uma delas me chamou atenção, o ivy club. na hora, só vi uma fachada imponente. depois descobri que é o clube mais antigo e exclusivo da universidade, fundado em 1879. ali, tradição, rede e silêncio.

o ivy club faz parte de um grupo de onze eating clubs que existem em princeton desde o fim do século XIX. eles surgiram porque o refeitório oficial da universidade não comportava todos os alunos e acabaram virando uma alternativa privada, com seleção e regras próprias. o ivy foi fundado em 1879 e é o mais antigo de todos. até hoje, o processo de admissão, chamado de bicker, envolve entrevistas e votações secretas entre os membros. o prédio atual, de 1898, foi desenhado pelo escritório McKim, Mead & White, o mesmo que projetou o University Club of New York, o que reforça a ligação entre os clubes universitários e os clubes privados.
irmandades: fraternidades e sororidades
as fraternidades e sororidades são parte da cultura universitária americana desde o século XVIII. a primeira delas, phi beta kappa, nasceu em 1776 no college of william & mary, na virgínia, como uma sociedade literária e secreta, com reuniões fechadas, símbolos e um juramento de lealdade. a ideia se espalhou rapidamente para outras universidades, princeton, harvard, yale, dartmouth, e no século XIX essas organizações já haviam se transformado em espaços de convivência social, influência e seleção.
as fraternities (masculinas) e sororities (femininas) funcionam de forma independente da universidade, com casas próprias, regras internas e rituais que passam de geração em geração. a entrada é feita por processos chamados de rush e pledging, uma espécie de semana de provas sociais em que os veteranos escolhem os novos membros. em princeton, a presença dessas casas é menor que em outras ivy leagues, mas ainda existe e tem peso cultural. muitas vezes é ali que se formam as primeiras redes que depois se expandem para o mundo profissional.

por trás da imagem festiva, comemorações temáticas, bandeiras, camisas bordadas, há uma estrutura complexa de tradição e pertencimento. várias figuras públicas americanas começaram a vida adulta dentro desses grupos, incluindo john f. kennedy (harvard, spee club), elon musk (penn, alpha delta phi) e ruth bader ginsburg (cornell, alpha epsilon phi).
a ideia central é sempre a mesma: criar uma comunidade fechada com valores próprios, uma rede de apoio e influência que se estende muito além do campus.
the inner circle


acima das fraternidades e sororidades, existem grupos ainda mais fechados, as chamadas sociedades secretas. elas surgiram no século XIX e continuam ativas nas universidades mais tradicionais dos Estados Unidos. a mais conhecida é a skull and bones, criada em 1832 na universidade de yale. entre seus ex-integrantes estão george h. w. bush, george w. bush e john kerry, além de executivos do mercado financeiro e da diplomacia americana. em harvard, o porcellian club, de 1791, é o mais antigo dos chamados final clubs, tão reservado que o prédio não tem placa e o nome dos membros nunca é divulgado.
essas sociedades existem de verdade, com sedes, arquivos e registros universitários. o sigilo é sobre o que acontece dentro, não sobre sua existência. o prédio da skull and bones, conhecido como the tomb, aparece em mapas do campus de yale. em harvard, a lista oficial de final clubs é pública e publicada pela própria universidade. os membros são escolhidos por indicação, geralmente no último ano, e mantêm o vínculo por toda a vida.
o benefício é simples e direto: rede e confiança. essas conexões funcionam como uma extensão profissional depois da formatura. em yale, grupos de ex-membros da skull and bones administram fundos filantrópicos e participam de conselhos empresariais. em harvard, os final clubs sempre foram pontos de contato entre formandos e o mercado financeiro de boston e nova york.
os mesmos laços que começam em jantares discretos e se transformam, décadas depois, em alianças de negócios.
com o tempo, essa cultura saiu das universidades e se espalhou pela vida adulta. o modelo dos private clubs nasceu daí: clubes com acesso restrito, critérios de entrada, códigos de comportamento e a promessa de que o que acontece ali dentro não precisa ser explicado. o University Club of New York, criado em 1865 por ex-alunos de harvard, yale e columbia, é um exemplo clássico. o Knickerbocker Club, fundado em 1871, mantinha uma lista de membros baseada em sobrenomes e reputação. ambos seguem ativos até hoje, discretos, caros e com o mesmo propósito original: reunir pessoas que se reconhecem pelo olhar antes do aperto de mão.
a invenção da exclusividade - os primeiros private clubs
o conceito de private club nasceu na inglaterra do século XVIII. eram espaços onde aristocratas e comerciantes se reuniam para trocar informações, negociar e formar alianças políticas. o white’s, criado em 1693, e o brooks’s, de 1764, foram alguns dos primeiros, e até hoje funcionam em londres. quando as grandes fortunas americanas começaram a se formar, no século XIX, os Estados Unidos importaram a ideia e adaptaram o modelo à nova elite financeira.

os clubes passaram a funcionar como extensões do trabalho e da influência, misturando convívio social e decisões econômicas. em nova york, por exemplo, o Metropolitan Club (1891) foi fundado por j. p. morgan e virou ponto de encontro de banqueiros e industriais.
ao longo do século XX, esses clubes começaram a mudar. processos por discriminação e novas leis civis obrigaram a abrir as portas para mulheres e minorias. a etiqueta rígida foi dando lugar a uma exclusividade mais sutil, menos sobre status, mais sobre afinidade. mas a essência permaneceu: o valor da confiança. o que antes era privilégio de banqueiros e políticos hoje se replica em versões contemporâneas, como o Soho House, o Aman Club, o Core Club ou o R360, voltadas para criativos, investidores e executivos que buscam o mesmo que os antigos sócios buscavam em 1850, privacidade, rede e reconhecimento entre pares.
members only - clubes de hoje
os clubes privados nunca desapareceram. eles apenas trocaram os lustres vitorianos por janelas de vidro e playlists no lugar de orquestras. o princípio, porém, continua o mesmo: reunir pessoas com interesses parecidos, longe da pressa e da exposição.
em nova york, o Aman Club é o exemplo mais extremo dessa nova geração. inaugurado em 2022, dentro do edifício Crown Building, cobra US$ 200 mil de taxa de adesão e cerca de US$ 15 mil anuais. os membros têm acesso a suítes exclusivas, spa, piscina, restaurantes e eventos fechados com artistas e investidores. mais do que um espaço físico, o Aman vende a ideia de tempo e silêncio, luxo em versão contemporânea.

outro nome forte é o Core Club, também em nova york, conhecido como o “anticlub”. a adesão gira em torno de US$ 100 mil, com anuidades acima de US$ 15 mil. o público mistura executivos, criativos e investidores que buscam um lugar onde as conversas importam mais do que o endereço. há programação cultural, jantares privados e acesso a uma rede internacional de membros com perfis complementares.
no topo da pirâmide está o R360 Club, criado em 2018 para famílias com patrimônio superior a US$ 100 milhões. a filiação é feita por convite e o foco é conectar herdeiros, fundadores e filantropos. além de encontros presenciais, o clube oferece grupos de investimento, retiros de liderança e mentorias entre gerações. aqui, exclusividade não é ostentação, é filtragem: cada membro precisa agregar conhecimento e confiança ao grupo.
o benefício é claro. em um mundo de acesso total, o valor está justamente no que é limitado. de certo modo, são a continuação natural daquela cultura que começou nos campus das ivy leagues. o cenário mudou, as roupas mudaram, mas o instinto permanece o mesmo: o desejo de estar entre iguais, em espaços onde a conversa é o verdadeiro capital.
o dilema dos clubes modernos
nem tudo sobrevive ao próprio sucesso. alguns dos clubes mais icônicos do mundo começaram a enfrentar, nos últimos anos, o mesmo dilema que as universidades de elite viveram um século atrás: como manter o valor da exclusividade quando o acesso se expande.
o caso mais visível é o da Soho House. criada em 1995 em londres como um ponto de encontro para pessoas criativas, cresceu para mais de 40 unidades no mundo e passou a ter mais de 200 mil membros. a expansão trouxe prestígio, mas também críticas. em 2023, o grupo registrou perdas de £92,5 milhões, segundo o The Guardian, mesmo com aumento no número de associados. em 2025, anunciou que voltaria a ser uma empresa privada, num acordo de US$ 2,7 bilhões, liderado pelo fundo Blue Crown.
um porta-voz da empresa disse à BBC: “à medida que crescemos, nosso desafio é manter a experiência e o senso de comunidade que tornaram a Soho House especial.” o Financial Times descreveu a situação como “um teste de coerência para um modelo que transformou exclusividade em escala global.”
relatórios do setor indicam que outros clubes enfrentam dilemas parecidos. um estudo da DePaul University apontou que a adesão de novos membros vem caindo entre as gerações mais jovens, que tendem a buscar propósito e curadoria, não apenas status. a Bloomberg resumiu o momento dizendo que “os clubes privados já não são o que eram”, não por nostalgia, mas porque o significado de pertencimento está mudando.



after exclusivity
há um padrão que se repete em toda forma de exclusividade. primeiro vem o grupo pequeno, movido por afinidade. depois, o crescimento, o prestígio, a diluição. e em seguida, o desejo de começar tudo de novo, menor, mais seletivo, mais fiel à ideia original. é um ciclo antigo, descrito por quem estuda comportamento humano e consumo de luxo:
toda comunidade nasce de uma busca por pertencimento e morre quando esse pertencimento se torna acessível demais.
os clubes de hoje estão exatamente nesse ponto da curva. os mais tradicionais tentam se reinventar para parecer atuais; os novos tentam se distinguir sem parecer elitistas. ambos estão tentando responder à mesma pergunta: o que faz um grupo continuar relevante quando todo mundo pode criar o seu próprio?
pesquisas sobre comportamento mostram que o vínculo entre exclusividade e valor continua forte, mesmo entre gerações mais jovens. o True Luxury Global Consumer Insight da Boston Consulting Group indica que o desejo de “acesso privilegiado” ainda é um dos principais motivadores de compra, inclusive entre consumidores que se dizem contrários à ostentação. em outras palavras, o status não desapareceu, ele só mudou de formato.
é por isso que a ideia de comunidade fechada continua relevante. não porque as pessoas precisem de um selo, mas porque ainda associam raridade a valor.
enquanto isso for verdade, sempre haverá espaço para novos clubes, menores, mais discretos e talvez mais coerentes com o tempo em que a gente vive.
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