27 nov. 2025 · natália honold

american dream, revisited

o que cada geração chama de estabilidade

eu tenho um jeito específico de olhar para o mundo: começo pelas coisas que parecem simples demais para despertar interesse e tento entender o que elas revelam quando tiradas do automático. quase sempre, o que parece pequeno vira um sinal do que está acontecendo no fundo: hábitos, buscas, repetições, modos de vida que passam batido no dia a dia. meu objetivo aqui é dividir esse olhar com você, para que esses mesmos sinais também possam abrir leituras novas no seu trabalho e na sua rotina.


ballerina farm

ballerina farm é uma propriedade em utah administrada por hannah e daniel neeleman, que ganhou projeção nacional ao transformar tarefas cotidianas da vida rural em conteúdo. os vídeos mostram preparo de refeições, organização da casa, cuidados com os animais e atividades com os filhos, sempre com boa produção mas nada montado. hannah tem formação em dança pela Juilliard e daniel é filho de david neeleman, fundador da azul airlines e jetblue. o conteúdo ampliou o alcance da marca e sustentou a criação de um negócio que vende carnes, utensílios, protein powder e itens ligados ao que aparece nas publicações.

o interesse por esse tipo de conteúdo cresceu num período específico. desde 2020, relatórios de saúde mental registram aumento de ansiedade e esgotamento em diversos países, e as plataformas digitais mostram crescimento nas buscas por organização, rotina e previsibilidade. vídeos que apresentam uma sequência clara de tarefas passaram a atrair público por oferecer uma forma simples de acompanhar uma rotina estruturada, mesmo que distante da realidade de quem assiste. nesse cenário, o domestic content funciona quase como uma referência visual de estabilidade.

instagram · @ballerinafarmver o post no instagram

o caso de ballerina farm ajuda a entender como rotinas registradas online passaram a influenciar comportamento e consumo. quando uma sequência diária aparece com consistência, ela deixa de ser apenas registro e passa a servir como modelo para quem acompanha, mesmo sem intenção explícita. isso não está restrito ao ambiente doméstico ou rural. fenômenos contemporâneos em setores completamente diferentes mostram que esse padrão se repete quando hábitos cotidianos se tornam visíveis o suficiente para influenciar público.

foto da primeira loja da ballerina farm em utah e a “subscription box” com produtos da marca que chegam direto na sua casa.

erewhon

uma rede de mercados premium em los angeles, ganhou relevância recente seguindo lógica semelhante. fundada nos anos 1960 com foco em produtos naturais, a marca foi se reposicionando ao longo do tempo até se tornar um ponto frequente em vídeos de compras e refeições postados nas próprias lojas. reportagens mostram números incomuns para um mercado desse porte, como os cerca de 40 mil smoothies vendidos por mês após uma colaboração que viralizou com hailey bieber. a repetição desses conteúdos ajudou a transformar produtos específicos em itens reconhecidos publicamente.

o interesse pelo erewhon mostra como rotinas de consumo ganham força quando aparecem com frequência suficiente. compras filmadas, bebidas populares e hábitos capturados em vídeo passam a fazer parte da forma como as pessoas observam e entendem o dia a dia. essa dinâmica, que surge tanto em uma fazenda em utah quanto em um mercado de alto padrão em los angeles, ajuda a preparar o terreno para observar como outras épocas também organizaram expectativas em torno de modelos específicos de vida e consumo.

antes de ganhar nome em livros e força política no pós-guerra, essa busca por estabilidade já aparecia nos primeiros subúrbios planejados. subúrbios como levittown, em new jersey, começaram a crescer nos anos 1940 com ruas largas, escolas novas e comércio local pensado para famílias que queriam uma vida previsível depois de décadas instáveis. era uma forma inicial de organizar o cotidiano: casas parecidas, rotinas definidas e uma sensação de que tudo seguiria um plano. cada época encontra um cenário para depositar sua ideia de vida possível.

levittown, considerado o primeiro grande subúrbio planejado do país. o projeto inaugurou a ideia de estabilidade ligada à casa própria e rotina previsível no pós-guerra.

a expressão “american dream” surgiu em 1931.

ela aparece no livro the epic of america, escrito por james truslow adams, um historiador americano conhecido por analisar o desenvolvimento social e econômico do país. adams descreveu o american dream como a possibilidade de qualquer pessoa melhorar de vida a partir do próprio esforço, independentemente da origem. o termo ganhou força porque veio depois da crise de 1929, num momento em que estabilidade parecia distante para boa parte da população.

a ideia que ganhou forma nas políticas públicas e no mercado imobiliário

hipotecas acessíveis, empregos estáveis e incentivos governamentais permitiram que famílias comprassem casas em loteamentos planejados. levittown, como mencionado acima, oferecia milhares de casas padronizadas a preços menores do que o aluguel. isso criou um modelo claro do que significava “conseguir estabilidade” para a classe média da época.

a expansão da televisão

em 1952 havia quatro milhões de televisores nos estados unidos; em 1960, cinquenta milhões. nesse período, programas, propagandas e notícias mostravam com frequência cenas ligadas a casa, família e vida suburbana. era um conjunto de referências que aparecia todos os dias, no mesmo horário, para pessoas de diferentes regiões.

família tradicional americana assistindo tv nos anos 60

as gerações do american dream

o american dream nunca foi uma fórmula cravada, mas cada geração acreditou em uma versão específica dele.

boomers cresceram num período de emprego estável, crédito barato e expansão dos subúrbios. a casa própria ocupava o centro da vida adulta porque, economicamente, isso era possível. políticas públicas, juros baixos e salários previsíveis criaram um ambiente onde comprar um imóvel era um passo lógico, não um projeto distante.

a geração x chegou quando esse cenário já estava mudando. custos mais altos, mercados menos previsíveis e uma cultura profissional mais competitiva deslocaram o foco para ascensão individual. para muitos, estabilidade virou menos um conjunto de bens e mais a capacidade de manter renda e posição. ainda assim, a estrutura boomer — casa, família, carreira contínua — continuava funcionando como referência.

entre millennials e gen z, o descompasso entre a referência e a realidade ficou explícito. 73% dos jovens dizem acreditar no american dream, mas só metade considera que a versão tradicional faz sentido hoje

o dado decisivo aparece no mercado imobiliário: a idade média do comprador de primeira casa subiu para 40 anos, o maior número já registrado, e apenas 21% dos compradores em 2025 estavam adquirindo seu primeiro imóvel, segundo levantamento da National Association of Realtors citado pela Fortune

94% da gen z afirma que comprar casa e formar família era mais acessível para gerações anteriores – o que desmonta a estrutura boomer como padrão universal. quando as condições econômicas mudam, o sonho muda junto.

para millennials e gen z, estabilidade hoje aparece mais ligada a autonomia profissional, mobilidade e liberdade de ritmo do que a patrimônio fixo. não é que o american dream tenha desaparecido; ele migrou para outro lugar.


quando o american dream foi formulado, ele descrevia uma possibilidade concreta para o contexto de então. décadas depois, a casa própria virou o asset mais repetido dessa ideia. hoje, nada disso desapareceu, mas mudou de proporção.

para muita gente, estabilidade não está mais ligada a um conjunto de bens específicos e sim à sensação de conseguir organizar a própria vida de um jeito que faça sentido agora.

exemplos recentes ajudam a mostrar isso. o American Dream Mall, em NJ, foi lançado em 2019 com esse nome excessivamente otimista, apostando num consumo que já não existia daquela forma. o projeto acumula prejuízos, tem dívidas superiores a três bilhões de dólares e segue com baixa ocupação mesmo depois de várias tentativas de ajuste.

um empreendimento chamado “American Dream” ter se tornado um caso difícil de sustentar diz muito sobre como o ideal se deslocou.

quando a gente olha para esses movimentos, dá para perceber que todo mundo, em algum nível, está escolhendo uma versão própria do que acredita ser suficiente. talvez a pergunta real seja essa: o que virou “o sonho” hoje, quando ninguém mais concorda sobre o formato?

não é somente sobre fazendas, mercados, shoppings ou influenciadores. mas sim como as pessoas procuram referências de vida possível quando tudo à volta muda rápido demais. cada geração fez isso de um jeito. o que antes foi um bairro padronizado, depois virou uma carreira contínua e hoje aparece em decisões menores que parecem mais realistas para quem vive este momento.

em 1931, james truslow adams descreveu o american dream como:

“a better and fuller and richer life for everyone, with opportunity for each according to ability or achievement”.

a frase atravessou quase um século, sempre ocupando um espaço diferente dependendo do momento. continua ali, exatamente como foi escrita, enquanto tudo à volta dela mudou mais de uma vez.


fontes:

ballerina farm

– the salt lake tribune, 2024 — informações sobre a família neeson e a estrutura do negócio

(https://www.sltrib.com)

saúde mental, ansiedade, busca por rotina

– world health organization — relatório de saúde mental 2022

(https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338)

– google trends — categoria “home & lifestyle”, 2023

(https://trends.google.com)

erewhon

– vogue business — dados sobre vendas e colaborações do mercado

(https://www.voguebusiness.com/companies/how-erewhon-went-from-grocery-store-to-lifestyle-hub)

origem do american dream

– bridgeworks — “the evolution of the american dream”

(https://s3.amazonaws.com/bridgeworks-misc/The+Evolution+of+the+American+Dream.pdf)

expansão das televisões no pós-guerra

– bridgeworks — mesmo relatório acima (dados sobre TVs de 1952–1960)

(https://s3.amazonaws.com/bridgeworks-misc/The+Evolution+of+the+American+Dream.pdf)

mudança geracional do american dream

– independent center — “young people modernized the american dream”, 2025

(https://independentcenter.org/wp-content/uploads/2025/01/Young-People-Modernized-the-American-Dream.pdf)

mercado imobiliário americano

– fortune — idade média dos compradores de primeira casa em 2024–2025

(https://fortune.com/2024/03/22/first-time-homebuyer-age-record-us-housing-market/)

american dream mall

– bloomberg — relatório sobre dívidas e baixa ocupação do shopping

(https://www.bloomberg.com/news/articles/2024-02-20/american-dream-mall-in-nj-faces-more-financial-strain)

frase original do american dream

– james truslow adams — the epic of america, 1931

(versão digital de domínio público: https://archive.org/details/epicofamerica0000adam)

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