a estrada antes da curva
skin in the game, o lado difícil das tendências e alberto caeiro
o assunto de hoje vem diretamente do sofá da minha casa, de conversas inspiradoras com uma amiga que está em transição de carreira.
há alguns anos, ela percebeu que o dia a dia jurídico já não fazia muito sentido – mesmo tendo escolhido aquilo por tanto tempo – e decidiu trabalhar com ESG. a gente sempre conversa muito sobre caminho. não o currículo, o caminho. e sobre como assusta admitir que, por mais que você planeje, no fim das contas é a sua maneira de lidar com a vida que escreve a história.

existe uma ideia confortável de que uma carreira de sucesso é um roteiro com passos milimetricamente desenhados, mas muita coisa que hoje guia o seu trabalho nem existia como opção no momento em que você escolheu o curso no vestibular.
funções nascem de interseções — linguagem, mercado, tecnologia, gente — e só recebem nome depois.
do meu ponto de vista, o movimento da minha amiga parece óbvia: cada vez mais, ouviremos falar sobre a importância de governança – o G do ESG, e, por consequência, mais demanda aparecerá. ao mesmo tempo, eu acompanhei todo o processo de mudança de perto e sei que foi (e ainda é) uma sequência de ajustes sob restrições.
nessas horas, a “tendência” se mostra muito menos cool. enquanto humanos, sentimos medo, principalmente quando a vida escolhe por nós.
skin in the game é muito menos sexy do que te contam
tem algo interessante sobre a relação entre transições e essa newsletter: escrever sempre foi o lugar em que eu me sinto mais eu, mas expor pensamento em público tem custo. e a cultura do nosso mercado não costuma incentivar o risco.
ela, na verdade, privilegia previsibilidade: track record, política de investimento, notas explicativas, tudo para reduzir surpresa. faz sentido do ponto de vista operacional; mas, no plano individual, se você só age quando tem a percepção de risco é quase zero, se torna refém da insegurança.
então eu fui fazendo: escrevendo, testando, e continuo buscando entender onde o meus textos realmente entregam utilidade – pra mim e pra vocês. de fora pode parecer que faço tudo isso de olhos fechados, mas no backstage tem muito ajuste e também muito texto que ficou guardado no arquivo.
muita gente que me conhece hoje me vê confortável sendo quem eu sou. o lado de fora sempre vê naturalidade e fluidez onde por dentro existiu mais tentativas e erros do que aplausos.
o que quase não aparece é que meu caminho não foi o da vitrine perfeita: não estudei na melhor faculdade, não tive o estágio dos sonhos. a história foi outra. foi descobrir, aos poucos, que linguagem, curiosidade e pessoas eram o meu eixo — e que eu podia trabalhar fazendo qualquer coisa em qualquer lugar a partir disso, mesmo quando o diploma dizia outra coisa.
é curioso como uma transição se instala em detalhes antes de virar um anúncio. você percebe que começou quando muda o tipo de pergunta que faz nas reuniões e o jeito de organizar a agenda.
primeiro aparece a prática; depois vem o nome. o rótulo chega por último porque descreve o que já está em andamento, não o contrário.
quando alguém diz “parece que você nasceu pra isso”, o que essa frase está tentando nomear é a ilusão da coerência. reputação, no fim, é um sistema simples: você aparece, resolve, melhora, repete. alguém confia. outra pessoa chama. e, quando você nota, existe um novo espaço de trabalho.
“mas e o medo?”
ele fica. não o dramático; o operacional. o que pergunta se você vai sustentar aquela escolha na segunda-feira seguinte.
na nossa indústria, ele tem até utilidade: funciona como calibrador. se a inércia do mercado puxa para o seguro, a sua atenção precisa puxar para o necessário. no meu caso, escrever em público me ensinou a aceitar que parte da incerteza é preço de aprendizado.
histórias ensaiadas podem ser ótimas nas redes sociais, mas pouca coisa muda na mesa sem essa parte invisível. o que interessa é se o que você está construindo melhora a prática — a sua e a de quem vive com você.
não quero romantizar: dá trabalho explicar o que você faz enquanto tenta fazer melhor. cansa repetir a mesma história para pessoas diferentes, atravessar salas onde ninguém espera que você esteja. ainda assim, foi daí que vieram as oportunidades que mudaram o meu caminho.
se você está em uma curva agora, e nada do que você quer tem nome à mão, não conclua que falta algo em você. pode faltar só vocabulário.
funções novas são, antes de tudo, uma forma nova de combinar o que você já sabe fazer com o que o contexto precisa. o resto é tempo, consistência e a disposição de suportar um pouco da sensação de não conseguir controlar a vida.
preocupe-se menos em chegar “ao lugar certo” e mais em tornar os lugares em que você pisa um pouco mais coerentes com quem você é enquanto aprende e trabalha.
isso tem impacto no mercado, sim, porque muda o modo como as coisas são feitas ao seu redor. e é por isso que vale: porque, depois de um tempo, o dia a dia passa a ter a forma daquilo que de fato só você poderia criar.
quero me despedir compartilhando um poema de alberto caeiro que me acompanhou em muitos momentos de dúvida – e espero que te faça companhia daqui pra frente também. :)
para além da curva da estrada
talvez haja um poço, e talvez um castelo,
e talvez apenas a continuação da estrada.
não sei nem pergunto.
enquanto vou na estrada antes da curva
só olho para a estrada antes da curva,
porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
de nada me serviria estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
se há alguém para além da curva da estrada,
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
essa é que é a estrada para eles.
se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
por ora só sabemos que lá não estamos.
aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
há a estrada sem curva nenhuma.
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